sábado, 2 de outubro de 2010

Memórias do ensaio para a humanidade I: Primeira Guerra

" Albert exprime muito bem o que pensamos:
- A guerra arrumou-nos pra tudo.
Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conqusitar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra."

(...)

" A frente é uma jaula, dentro da qual a gente tem de esperar nervosamente os acontecimentos. Estamos deitados sob a rede formada pelos arcos das granadas, e vivemos na tensão da incerteza. Acima de nós, paira a fatalidade. Quando vem um tiro, posso apenas esquivar-me e mais nada; não posso adivinhar exatamente onde vai cair, nem influir sua trajetória.
É este acaso que nos torna indiferentes. Há alguns meses, eu estava sentado num abrigo jogando cartas; muito tempo depois, levantei-me e fui visitar uns amigos que estavam em outro abrigo. Quando voltei, já não existia o primeiro: fora completamente destruído por uma granada. Voltei ao segundo abrigo e cheguei no exato momento de ajudar a desobstruí-lo, pois, neste ínterim, também havia sido soterrado.
No abrigo à prova de bombas, depois de dez horas de bombardeio posso ser estraçalhado e posso não sofrer um único arranhão; só o acaso decide se sou atingido ou fico vivo. Cada soldado fica vivo apenas por mil acasos. Mas todo soldado acredita e confia no acaso."

(...)

" Os ratos aqui são especialmente repugnantes, pelo seu grande tamanho. É o tipo que se chama "ratazana de cadáver". Têm caras horríveis, malévolas e peladas. Só de ver seus rabos compridos e desnudos nos dá vontade de vomitar.
Parecem muito esfomeados. Já roeram o pão de quase todos. Kropp mete o dele embaixo da cabeça, bem embrulhado num pedaço de lona, mas, mesmo assim, não consegue dormir, porque eles correm por sobre o seu rosto para alcançar o pão. Detering quis ser mais esperto: amarrou um arame fino no teto e pendurou nele o seu pedaço de pão. Durante a noite, quando acendeu a lanterna, viu o arame oscilar de um lado para o outro. Montada no pão, balançava-se uma gorda ratazana."


Erich Maria Remarque - Nada de novo no front

domingo, 26 de setembro de 2010

Lucidez


Terminei de ler Ensaio sobre a lucidez de Saramago. É uma história que, algo que a maioria desconhece, narra fatos pós cegueira branca, retomando inclusive alguns personagens.
Muitas risadas até pra lá do meio: gosto do humor de Saramago. Antes do fim, porém, resolveu tocar fogo em minha esperança e sapatear sobre a minha inocência. Ao primeiro ato, concretizado numa chuva de panfletos, foi inevitável chorar pela beleza da lucidez do comissário. Quanto ao segundo, foi como ter a inocência reperdida. As desgraças que se sucedem são conhecidas, mas poder assisti-las de fora, é uma oportunidade única que faz você crescer. Paradoxalmente a ficção faz a realidade mais densa. Triste o tempo em que crescer é sinônimo de perder a inocência.
E terminou assim, com esperança e dor como duas chagas abertas, uma fazendo doer a outra, pela incapacidade de deixar a outra cicatrizar. Melhor assim que descrer de vez.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mistério e certeza

Indago a uma planta o que ela é como quem pergunta sobre si mesmo. Ela não responde, como é de sua natureza. Houve quem disse que é preciso saber perguntar, e deu a isso o nome de ciência. Mas no fundo continuamos todos sem saber, apesar do pouco mais que aprendemos.
Eu não tenho a resposta, como é de nossa natureza. Tudo que sei é o que sinto, e disso também sei pouco. Mas sei sobre o que ninguém deveria sentir. Há fome e comida de sobra. E esse saber dá algum sentido e motivo pra gastar as horas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Arte do encontro?

"A vida é a arte do encontro", disse o poeta, meu xará. Mas falta pra ser arte a possibilidade do domínio pelo artista, o intuir, o controlar, o aprender. Todas essas coisas do lado oposto da imprevisibilidade.

Encontrar é coisa rara, misticismo, loteria. E não há domínio possível sobre o caos. Não há arte em encontrar, não acreditem nessa mentira! Já viu alguém por aí dizendo "hoje eu encontro!" e pá? Pelo menos não uma arte humana, como concebemos. Se há arte em como o universo nos concede os encontros, pouco importa, daqui de baixo o que dá pra saber é sentir. "Plim" e acontece.

Desejo e objeto na hora e lugar certo. Aumento da pressão, elevação da temperatura, ondas magnéticas, êxtase. Domínio? Nenhum. Plim-plim-plim. E como se não bastasse ser raro, tudo isso está sujeito a sutis desequilíbrios. Teoria do caos, ouviu falar? Mas arte...

Se abrir, cuidar, temer ou ter coragem é a arte que nos resta. E é muito e há muito aí. Não nego. Mas como quero falar mal, reclamo. Mas não pense que me tiro a razão por conta de um pouco de ira. Quem há de negar que desencontrar é tão mais fácil? Por vezes, tão incontrolável quanto? É quando penso que faltou compaixão em quem criou esse universo assim, desse jeito, com essa maldita brecha, com esse maldito caos. O mal-amado ainda me resolve pôr ordem na maldita gravidade. Como se não bastassem todos os pesos que já temos de carregar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Duas das piores coisas que se pode tirar de um ser humano, é a sua capacidade de se indignar e o seu desejo de construir coletivamente uma realidade diferente.

Que tipo de máquina é um especialista sem propósitos?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Velho

- Oi.

- Só isso?

- É.

- ... hummm.

- Hum o Q?

- Nada.

- Bom você por aqui.

- Bom estar de volta.

-- Olha só... postagem 77.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sambas

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

[...]

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não