sábado, 2 de outubro de 2010

Memórias do ensaio para a humanidade II: Primeira Guerra

" Hoje, passaríamos pela paisagem de nossa juventude apenas como viajantes. Os fatos nos consumiram; como os comerciantes, sabemos distinguir as diferenças e, como os carniceiros, sabemos reconhecer as necessidades. Já não somos despreocupados; vivemos numa terrível indiferença. Se estivéssemos lá, será que viveríamos? Desamparados como crianças e experientes como velhos, somos primitivos, tristes e superficiais... Acho que estamos perdidos."

(...)

" Os dias se sucedem, e cada hora é ao mesmo tempo incompreensível e natural. Os ataques seguem-se aos contra-ataques, e, lentamente, nos espaços livres das trincheiras, os mortos se empilham. Geralmente, conseguimos trazer de volta alguns feridos; no entanto, alguns ficam estendidos por muito tempo, e nós os ouvimos morrer.
Procuramos um deles em vão durante dois dias."

(...)

" Os dias são quentes, e os mortos jazem desenterrados. Não podemos ir buscar todos, não saberíamos para onde ir com eles.
Não precisamos, porém, nos preocupar: são enterrados pelas granadas. Alguns tem as barrigas inchadas como balões, assobiam, arrotam e mexem-se. São os gases que se agitam neles.
O céu está azul e sem nuvens. As noites são sufocantes, e calor sobe da terra. Quando o vento sopra na nossa direção, traz o vapor de sangue, que é pesado e de um doce repugnante; esta exalação mortal das trincheiras parece uma mistura de clorofórmio e de podridão, que nos causa mal-estar e vômitos.

(...)

" Gostamos dos aviões de combate, mas detestamos como a peste os de observação, porque atraem para nós o fogo da artilharia. Poucos minutos depois de surgirem, explode um dilúvio de granadas. Com isto, perdemos onze homens num só dia, inclusive cinco enfermeiros. Dois ficaram tão esmagados, que Tjaden afirmou poder raspá-los da parede da trincheira com uma colher e enterrá-los nas marmitas. Um outro teve o abdome arrancado juntamente com as pernas. Está morto, com o peito encostado na trincheira, seu rosto está verde como um limão, e no meio da barba cerrada ainda arde um cigarro, que continua queimando até apagar-se nos seus lábios.
Por ora, colocamos os mortos numa grande cratera. Até o momento, já empilhamos três camadas."


Erich Maria Remarque - Nada de novo no front

Memórias do ensaio para a humanidade I: Primeira Guerra

" Albert exprime muito bem o que pensamos:
- A guerra arrumou-nos pra tudo.
Ele tem razão. Não somos mais a juventude. Não queremos mais conqusitar o mundo. Somos fugitivos. Fugimos de nós mesmos e de nossas vidas. Tínhamos dezoito anos e estávamos começando a amar a vida e o mundo e fomos obrigados a atirar neles e destruí-los. A primeira bomba, a primeira granada, explodiu em nossos corações. Estamos isolados dos que trabalham, da atividade, da ambição, do progresso. Não acreditamos mais nessas coisas; só acreditamos na guerra."

(...)

" A frente é uma jaula, dentro da qual a gente tem de esperar nervosamente os acontecimentos. Estamos deitados sob a rede formada pelos arcos das granadas, e vivemos na tensão da incerteza. Acima de nós, paira a fatalidade. Quando vem um tiro, posso apenas esquivar-me e mais nada; não posso adivinhar exatamente onde vai cair, nem influir sua trajetória.
É este acaso que nos torna indiferentes. Há alguns meses, eu estava sentado num abrigo jogando cartas; muito tempo depois, levantei-me e fui visitar uns amigos que estavam em outro abrigo. Quando voltei, já não existia o primeiro: fora completamente destruído por uma granada. Voltei ao segundo abrigo e cheguei no exato momento de ajudar a desobstruí-lo, pois, neste ínterim, também havia sido soterrado.
No abrigo à prova de bombas, depois de dez horas de bombardeio posso ser estraçalhado e posso não sofrer um único arranhão; só o acaso decide se sou atingido ou fico vivo. Cada soldado fica vivo apenas por mil acasos. Mas todo soldado acredita e confia no acaso."

(...)

" Os ratos aqui são especialmente repugnantes, pelo seu grande tamanho. É o tipo que se chama "ratazana de cadáver". Têm caras horríveis, malévolas e peladas. Só de ver seus rabos compridos e desnudos nos dá vontade de vomitar.
Parecem muito esfomeados. Já roeram o pão de quase todos. Kropp mete o dele embaixo da cabeça, bem embrulhado num pedaço de lona, mas, mesmo assim, não consegue dormir, porque eles correm por sobre o seu rosto para alcançar o pão. Detering quis ser mais esperto: amarrou um arame fino no teto e pendurou nele o seu pedaço de pão. Durante a noite, quando acendeu a lanterna, viu o arame oscilar de um lado para o outro. Montada no pão, balançava-se uma gorda ratazana."


Erich Maria Remarque - Nada de novo no front

domingo, 26 de setembro de 2010

Lucidez


Terminei de ler Ensaio sobre a lucidez de Saramago. É uma história que, algo que a maioria desconhece, narra fatos pós cegueira branca, retomando inclusive alguns personagens.
Muitas risadas até pra lá do meio: gosto do humor de Saramago. Antes do fim, porém, resolveu tocar fogo em minha esperança e sapatear sobre a minha inocência. Ao primeiro ato, concretizado numa chuva de panfletos, foi inevitável chorar pela beleza da lucidez do comissário. Quanto ao segundo, foi como ter a inocência reperdida. As desgraças que se sucedem são conhecidas, mas poder assisti-las de fora, é uma oportunidade única que faz você crescer. Paradoxalmente a ficção faz a realidade mais densa. Triste o tempo em que crescer é sinônimo de perder a inocência.
E terminou assim, com esperança e dor como duas chagas abertas, uma fazendo doer a outra, pela incapacidade de deixar a outra cicatrizar. Melhor assim que descrer de vez.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mistério e certeza

Indago a uma planta o que ela é como quem pergunta sobre si mesmo. Ela não responde, como é de sua natureza. Houve quem disse que é preciso saber perguntar, e deu a isso o nome de ciência. Mas no fundo continuamos todos sem saber, apesar do pouco mais que aprendemos.
Eu não tenho a resposta, como é de nossa natureza. Tudo que sei é o que sinto, e disso também sei pouco. Mas sei sobre o que ninguém deveria sentir. Há fome e comida de sobra. E esse saber dá algum sentido e motivo pra gastar as horas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Arte do encontro?

"A vida é a arte do encontro", disse o poeta, meu xará. Mas falta pra ser arte a possibilidade do domínio pelo artista, o intuir, o controlar, o aprender. Todas essas coisas do lado oposto da imprevisibilidade.

Encontrar é coisa rara, misticismo, loteria. E não há domínio possível sobre o caos. Não há arte em encontrar, não acreditem nessa mentira! Já viu alguém por aí dizendo "hoje eu encontro!" e pá? Pelo menos não uma arte humana, como concebemos. Se há arte em como o universo nos concede os encontros, pouco importa, daqui de baixo o que dá pra saber é sentir. "Plim" e acontece.

Desejo e objeto na hora e lugar certo. Aumento da pressão, elevação da temperatura, ondas magnéticas, êxtase. Domínio? Nenhum. Plim-plim-plim. E como se não bastasse ser raro, tudo isso está sujeito a sutis desequilíbrios. Teoria do caos, ouviu falar? Mas arte...

Se abrir, cuidar, temer ou ter coragem é a arte que nos resta. E é muito e há muito aí. Não nego. Mas como quero falar mal, reclamo. Mas não pense que me tiro a razão por conta de um pouco de ira. Quem há de negar que desencontrar é tão mais fácil? Por vezes, tão incontrolável quanto? É quando penso que faltou compaixão em quem criou esse universo assim, desse jeito, com essa maldita brecha, com esse maldito caos. O mal-amado ainda me resolve pôr ordem na maldita gravidade. Como se não bastassem todos os pesos que já temos de carregar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Duas das piores coisas que se pode tirar de um ser humano, é a sua capacidade de se indignar e o seu desejo de construir coletivamente uma realidade diferente.

Que tipo de máquina é um especialista sem propósitos?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Velho

- Oi.

- Só isso?

- É.

- ... hummm.

- Hum o Q?

- Nada.

- Bom você por aqui.

- Bom estar de volta.

-- Olha só... postagem 77.