domingo, 26 de setembro de 2010

Lucidez


Terminei de ler Ensaio sobre a lucidez de Saramago. É uma história que, algo que a maioria desconhece, narra fatos pós cegueira branca, retomando inclusive alguns personagens.
Muitas risadas até pra lá do meio: gosto do humor de Saramago. Antes do fim, porém, resolveu tocar fogo em minha esperança e sapatear sobre a minha inocência. Ao primeiro ato, concretizado numa chuva de panfletos, foi inevitável chorar pela beleza da lucidez do comissário. Quanto ao segundo, foi como ter a inocência reperdida. As desgraças que se sucedem são conhecidas, mas poder assisti-las de fora, é uma oportunidade única que faz você crescer. Paradoxalmente a ficção faz a realidade mais densa. Triste o tempo em que crescer é sinônimo de perder a inocência.
E terminou assim, com esperança e dor como duas chagas abertas, uma fazendo doer a outra, pela incapacidade de deixar a outra cicatrizar. Melhor assim que descrer de vez.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Mistério e certeza

Indago a uma planta o que ela é como quem pergunta sobre si mesmo. Ela não responde, como é de sua natureza. Houve quem disse que é preciso saber perguntar, e deu a isso o nome de ciência. Mas no fundo continuamos todos sem saber, apesar do pouco mais que aprendemos.
Eu não tenho a resposta, como é de nossa natureza. Tudo que sei é o que sinto, e disso também sei pouco. Mas sei sobre o que ninguém deveria sentir. Há fome e comida de sobra. E esse saber dá algum sentido e motivo pra gastar as horas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Arte do encontro?

"A vida é a arte do encontro", disse o poeta, meu xará. Mas falta pra ser arte a possibilidade do domínio pelo artista, o intuir, o controlar, o aprender. Todas essas coisas do lado oposto da imprevisibilidade.

Encontrar é coisa rara, misticismo, loteria. E não há domínio possível sobre o caos. Não há arte em encontrar, não acreditem nessa mentira! Já viu alguém por aí dizendo "hoje eu encontro!" e pá? Pelo menos não uma arte humana, como concebemos. Se há arte em como o universo nos concede os encontros, pouco importa, daqui de baixo o que dá pra saber é sentir. "Plim" e acontece.

Desejo e objeto na hora e lugar certo. Aumento da pressão, elevação da temperatura, ondas magnéticas, êxtase. Domínio? Nenhum. Plim-plim-plim. E como se não bastasse ser raro, tudo isso está sujeito a sutis desequilíbrios. Teoria do caos, ouviu falar? Mas arte...

Se abrir, cuidar, temer ou ter coragem é a arte que nos resta. E é muito e há muito aí. Não nego. Mas como quero falar mal, reclamo. Mas não pense que me tiro a razão por conta de um pouco de ira. Quem há de negar que desencontrar é tão mais fácil? Por vezes, tão incontrolável quanto? É quando penso que faltou compaixão em quem criou esse universo assim, desse jeito, com essa maldita brecha, com esse maldito caos. O mal-amado ainda me resolve pôr ordem na maldita gravidade. Como se não bastassem todos os pesos que já temos de carregar.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Duas das piores coisas que se pode tirar de um ser humano, é a sua capacidade de se indignar e o seu desejo de construir coletivamente uma realidade diferente.

Que tipo de máquina é um especialista sem propósitos?

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Velho

- Oi.

- Só isso?

- É.

- ... hummm.

- Hum o Q?

- Nada.

- Bom você por aqui.

- Bom estar de volta.

-- Olha só... postagem 77.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sambas

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

[...]

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

domingo, 30 de maio de 2010

Estares

Acordo. E a realidade cai sobre minha cabeça em um turbilhão de fatos rígidos e duros como é da natureza da realidade. Mas enquanto realidade é tão flácida quanto o sonho do qual acordo. Tão real quanto.
Apenas duas formas possíveis de experenciar.
Isso é curioso, não?